Monique
Brief info

Me chamo Monique França, tenho 32 anos, mãe de Maria Luanda e Maria Tereza, graduada em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, especialista em Medicina de Família e Comunidade pela Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e mestre em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ, com pesquisa acadêmica focada em saúde da população negra.

O encontro com a medicina teve suas dificuldades quando os meus sonhos se encontraram com a realidade do espaço elitizado que o curso mantém. Foi na graduação que tive meu processo de empoderamento enquanto mulher, negra e favelada, pois, até então, o lugar onde eu estava não era sinônimo de questionamento. Nessa trajetória tive a oportunidade de conhecer muito mais pessoas incríveis do que pessoas que atrapalhassem a continuidade dos meus passos. Passos que não vieram de ontem, mas muito (muito, muito) antes de mim. Filha de uma mulher negra e empregada doméstica e pai branco e motorista, enfrento a passabilidade de ser tolerada em alguns espaços e a incompreensão de ocupar outros, como a própria medicina.

Meu encontro com a Medicina de Família e Comunidade é a oportunidade de contribuir com todos que lutaram e lutam pela justiça racial nesse país. É o lugar onde eu trabalho, milito, acolho, compartilho o cuidado, me reconheço naqueles que recebo e sou reconhecida na minha humanidade e potencialidade. Me aproximo nesse lugar de todas e todas, na sua cor, seu gênero, orientação sexual, crença, dores e alegrias, adoecimento, cura e recuperação.

Ao longo dessa trajetória, consigo afirmar que a maior graduação da minha vida foi fora de sala de aula: a maternidade. Neste lugar pude revisitar todas as disciplinas, cursos, congressos e ter plena certeza que essa passagem é única. E também tenho certeza que essa passagem me permite ter um memória de afeto, alegria, sem esconder qualquer dificuldade ou dor que possa existir (e inclusive validá-la), porque tive a Equipe do Sankofa comigo. Nessa equipe do lugar de ser cuidada, continuei sendo cuidada e passei a cuidar também. Como médica nessa equipe, eu vivo a melhor experiência profissional de compartilhar com outras profissionais o cuidado de mulheres e crianças de forma respeitosa, que valoriza as diferenças, que se propõe a fazer o impossível, neste lugar chamado Brasil, se tornar realidade.