Ariana Santos
Brief info

Durante alguns anos trabalhando como parteira me apeguei ao saber técnico como o único meio possível para um atendimento seguro, responsável e de qualidade. Por cinco anos me curvei à ciência e a defendi como única verdade no meu trabalho. Mesmo quando ela não explicava tudo, mesmo quando o coração pulsava apontando o caminho inverso, mesmo quando a intuição acertava e a ciência errava.  Mesmo assim, eu me mantinha fiel unicamente a ela.

Felizmente a vida é composta de muitos ciclos e essa caminhada terrena de constantes mudanças, indagações e adaptações, me obrigou a voltar meu olhar ao subjetivo, aos que vieram antes, aos saberes que foram tomados de nós e foram substituídos por uma ciência tecnocrática e hierarquizada. Olhando para trás percebi que para seguir adiante precisaria antes, resgatar o que havia sido abandonado. Aquilo que me fez chegar onde estou, mas que eu tinha feito questão de sufocar.

Ao resgatar aquilo que é meu por essência, um novo olhar se consolidou e então compreendi que assim como mente, corpo e espírito formam uma perfeita engrenagem, não se pode desvincular o parto da ciência e tampouco daquilo que é sagrado e inexplicável.

O parto é um momento de resgate, de história, de vida. E para estar nesse cenário é preciso entender quem você é e para que chegou até ali.

E Quem sou eu?

Hoje eu sou a crença naquilo que os olhos não podem ver e as mãos não podem tocar.

Sou mulher. Preta.

Neta de uma parteira preta que recebeu muitos dos seus na mesma casa que conheceram meus pés ainda miúdos.

Sou resistência negra.

Sou Enfermeira obstétrica por formação.

Parteira por determinação daqueles que vieram antes de mim.

Meu trabalho: “ Ajudar o espírito a chegar”

Uma ajuda que hoje é melhor porque estudei e porque olhei para trás. Porque entendi que sou um pouco do que meus antepassados foram. E por isso sou muitas, e assim não sou mais só. E não sendo só, posso estar. Junto. Ao lado. Inteira e em paz.